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Passagem de ônibus sobe mais que a inflação PDF Imprimir E-mail
Ter, 23 de Dezembro de 2008 10:26

Reajuste de 9,5% no preço das passagens de coletivos de Belo Horizonte supera em 3,3% o índice do IPCA previsto para este ano. Passageiros ficam revoltados

A dona-de-casa Débora Duarte, de 22 anos, vai pagar caro para viajar de ônibus do Barreiro, onde mora, até a região hospitalar de Belo Horizonte. Ela tem um filho doente e vai ao Hospital das Clínicas pelo menos três vezes por semana para tratamento. Assim como Débora, passageiros que usam os coletivos da capital vão sentir no bolso o reajuste médio de 9,5% nas passagens, que passa a vigorar a partir do dia 29. O cálculo é do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belo Horizonte (Setra) e o percentual supera o da inflação, que deve fechar o ano em 6,2%, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Os novos valores deverão ficar assim: a passagem de R$ 2,10 passará para R$ 2,30; a de R$ 1,50, para R$1,65; e a de R$ 0,50, para R$ 0,55. O reajuste é calculado de acordo com fórmula rígida estabelecida em contrato firmado em julho entre a BHTrans – empresa que gerencia o trânsito e o transporte público na capital –, e as concessionárias de ônibus.

Procurada pelo Estado de Minas, a BHTrans não confirmou a nova tarifa, mas caso o índice seja aprovado, além de ultrapassar em muito a inflação e superar o reajuste do salário mínimo, que este ano foi de 9,21%, vai ser o maior dos últimos dois anos. Em BH, mais de 1,4 milhão de pessoas usam diariamente o transporte coletivo. O procurador-geral do município, Marco Antônio de Rezende Teixeira, explica que nos anos anteriores o reajuste vigorava sobre a planilha de custos elaborada pela BHTrans.

Este ano, o cálculo segue uma fórmula que leva em conta quatro variáveis: combustível, rodagem (gasto dos pneus), manutenção da frota e folha de pagamento. Assim, cada item tem um peso no valor da passagem. “Aplicamos a fórmula de acordo com os diversos índices de inflação que variam sobre os insumos do transporte. É um método rígido de ajustamento, que mantém um custo real da tarifa. O contrato, válido para os próximos 20 anos, usa como base o valor da passagem de 2007 e estabeleceu a data de 29 de dezembro de cada ano para o início da vigência do reajuste”, explica o procurador.

Teixeira diz também que os índices de inflação forma calculados de 1º de dezembro de 2007 a 30 de novembro deste ano. “Esse tipo de contrato oferece estabilidade e regulação ao aumento e não há necessidade de especulação do valor. Qualquer pessoa que tenha acesso ao decreto pode fazer os cálculos. Não há nada secreto, o índice é claro e objetivo”, afirma o procurador-geral.

O promotor de Defesa do Consumidor, José Antônio Baeta de Melo Cançado, está de olho no reajuste. “Assim que o reajuste oficial for divulgado, vamos analisar as regras e normas do contrato para ver se o aumento é justo. A única certeza que temos é de que a passagem atual já é muito cara. Queremos avaliar se o índice aplicado é procedente. Na análise dos dois últimos anos não tivemos elementos para contrapor a decisão. Mesmo assim, creio que o transporte público não é deficitário e qualquer elevação no preço da passagem é um prejuízo à população”, afirma.

Ele observa que a maior fragilidade da prefeitura é na formatação de políticas para o transporte público. “Se não há controle eficaz, as altas tarifas são conseqüências imediatas. A passagem de BH já é uma das mais caras do país. Mas pela quantidade de reclamações que chegam à promotoria, o valor alto não significa qualidade no serviço. Muito pelo contrário”, comenta.

ABSURDO
Com um filho no colo e os outros dois esperando o ônibus, Débora Duarte ficou apreensiva ao saber da possibilidade do aumento da passagem. “Acho um absurdo. Como não tenho com quem deixar meus filhos, vou ao hospital levando os três. E para mim é difícil gastar R$ 2,10 com a condução. Imagine R$ 2,30? Estou desempregada e meu marido é o único que trabalha. Se a passagem fica mais cara, complica muito a minha vida”, diz.

A técnica de laboratório Irismar Elisa de Morais, de 40, também não concorda com o aumento. “Não tivemos esse reajuste em nosso salário. E por que temos que pagar mais caro pela condução? O serviço não melhorou e os ônibus continuam demorando demais”, diz. A telefonista Cláudia Gomes, de 27, ficou alarmada com a notícia: “Pela qualidade dos coletivos, esse aumento é injusto. Não podemos aceitar”. Depois de mais de uma hora esperando o ônibus na Avenida Alfredo Balena, o técnico Saulo Ferreira, de 48, desabafou: “Pago também as passagens da minha filha e isso vai influenciar muito na despesa de casa. Vou ter que economizar em alguns produtos para dar conta”.

METROPOLITANO
O presidente do Sindicato de Empresas de Transporte de Passageiros da Região Metropolitana de Belo Horizonte (Sintran), Rubens Lessa Carvalho, informou que a classe pediu ao Departamento de Estradas de Rodagem (DER) aumento de 16% nas tarifas dos ônibus que servem à população da Grande BH. “Ano passado, pedimos mais de 10% de reajuste, mas o departamento autorizou 5%. Entregamos o pedido em novembro e vamos esperar até o dia 31 por uma resposta”, afirma Lessa.