Blog Léo Quintino
| O interior dentro da metrópole |
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| Dom, 28 de Dezembro de 2008 17:42 |
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A mão segura com força o cabo de vassoura, os pés se atolam ligeiramente no barro, mas os olhos, mesmo um pouco embaçados, sabem muito bem aonde o corpo quer chegar. Cheia de energia e vontade aos 80 anos, Maria Alves Diniz, a dona Maria, atravessa o caminho encharcado pela chuva e se aproxima dos canteiros de quiabo. “Daqui a uns 15 dias, eles estarão no ponto”, prevê, ao conferir cada fruto com segurança e conhecimento de causa. Em seguida, a senhora risonha, de cabelos brancos e muitas histórias para lembrar, conta que cultiva o terreno há seis décadas, embora nunca guarde na cabeça os dados de cada safra. Na banca de verduras, que mantém durante todo o ano, há jiló, abóbora, beterraba, alface e outras hortaliças, dependendo da estação. Vendo a área rodeada de árvores frondosas, difícil acreditar que o terreno fica entre duas ruas movimentadas, a Conceição do Pará e a Gustavo da Silveira, no Bairro Santa Inês, na Região Leste de Belo Horizonte. Qualquer dúvida se desfaz em poucos minutos, quando um carro buzina ou se descobre a fachada dos prédios do outro lado da via pública. “Aqui é uma ilha de tranqüilidade e de produção. Já até me acostumei com o barulho”, diz dona Maria, ao deixar de lado a bengala improvisada e segurar uma caixa cheia de hortaliças. Embora incrustada no meio urbano, a terra é pródiga, responde positivamente aos bons tratos e dá à capital, cujo esteio econômico está no comércio e nos serviços, um charmoso toque rural. Natural de Capim Branco, na região metropolitana, dona Maria confessa sua paixão pela atividade agropecuária e pelos gestos de solidariedade. Matriarca de uma família de nove filhos, 16 netos e três bisnetos, ela diz que abomina os produtos químicos na lavoura. “Tudo aqui é natural, sem aditivos”, explica. Certa de que compartilhar também faz muito bem à saúde, a produtora ajuda uma creche e gosta de presentear os amigos com os legumes. “Já mandei cesta de verduras para o Palácio da Liberdade. Tenho muitos amigos”, afirma sem revelar nomes e posições.
O dia na fazenda é de movimento constante. Tem doce de leite no tacho de fogão a lenha, cabrito e galinha para tratar e rebanho para buscar no pasto. Num domingo de sol, logo depois de chegar de moto e levar dois dedos de prosa com o ajudante Mário Costa, Sílvio monta no cavalo e sai desembestado morro acima, para buscar o touro e as vacas no pasto. “Moro aqui a vida inteira, parece roça”, compara Sílvio, que se considera muito mais vaqueiro do que fazendeiro – as terras pertencem à mãe e estão há várias décadas em poder da família. O mais curioso é que, nesta vida (quase) sem relógio, a experiência marca o tempo. “Pode esperar que, lá pelas três e meia, ele está de volta”, diz Mário. É batata! Exatamente na hora anunciada ouve-se o cincerro badalando e o gado apontando no alto da estrada. Vida sem monotonia Monotonia passa longe da porta da viúva Ivone Dias Ferreira, moradora do Bairro Calafate, na Região Oeste de Belo Horizonte. Bem-humorada e esperta aos 81 anos, ela cria, no quintal de casa, galinhas caipiras, que, pelo visto, já se tornaram as meninas de seus olhos. Caminhando com cuidado pelo terreiro cheio de árvores frutíferas e plantas decorativas, dona Ivone sempre acha algum ovo perdido no meio das bananeiras. Depois de recolhê-lo, examina-o com cuidado, limpa-o e guarda-o no cesto. “São perfeitos, tudo fresquinho”, diz com um sorriso maroto.
Do pomar velho de guerra, companheiro há 59 anos, desde que o terreno foi comprado por 250 mil réis pela família, a dona-de-casa parece conhecer todos os segredos. Sabe que a mangueira está em plena safra; que a goiabeira ainda tem que esperar algum tempo para dar bons frutos; que a jabuticabeira, agora lisa, só voltará à exuberância em outubro; e que as carambolas são realmente deliciosas. Um segundo depois de enumerar as riquezas da área, ela se lembra: “Ah!, mas tem o pé de pitanga e o canteiro de plantas para fazer remédio; tem um ótimo contra resfriados”. Nascida em São João del-Rei, na Região dos Campos das Vertentes, dona Ivone veio bem pequena para Belo Horizonte. E se lembra, com lucidez, de que essa parte da cidade era sem prédios, sem movimento e confusão. A chegada à sua casa traduz um pouco dos velhos tempos, pois tem nome e número, mas é conhecida nas imediações como “rua de terra”. Outra lembrança forte está nas cisternas. “Recordo-me que todas as casas do bairro tinham cisternas, ainda tenho uma aqui”, revela apontando para o poço. Diante de seu pequeno mundo, que parece descolado da vida urbana, dona Ivone confessa que prefere essa tranqüilidade a qualquer agitação. “E olha que, quando cheguei a Belo Horizonte, fui direto morar no Barro Preto. Não troco isso por nada. E só saio daqui para vender os ovos e ir rezar na minha igreja”, afirma. Fonte: EM |



Mesmo com a ocupação de todos os espaços urbanos, moradores criam em bairros da periferia da capital vacas, cavalos, cabritos e aves. Safra de verduras e legumes garante sustento e renda de milhares de famílias
Bem distante dali, no Bairro Ribeiro de Abreu, na Região Nordeste, o discreto lado rural de BH ganha contornos mais fortes. A mudança de ares surge de repente, quando o cheiro de esterco invade as narinas e indica que, logo depois da curva, estão o curral e o gado leiteiro. A cavalo, o vaqueiro Sílvio Mota, de 40 anos, dá as boas-vindas e apresenta a propriedade, com extensas áreas verdes, nascentes e uma bela vista – de longe, num recorte da paisagem, dá para ver a Serra do Curral, a torre Altavila e a silhueta dos prédios.
Bem perto da acelerada Via Expressa, o terreno comprido retrata, com fidelidade, os do interior mineiro, daqueles bem sombreados e com alma cabocla, de chão batido, sem concreto e muita invenção. Logo na entrada, uma moita de guiné, planta poderosa contra mau-olhado, dá as boas-vindas e abre os caminhos. Do outro lado, um sabugueiro em flor traz boas lembranças para a católica dona Ivone, que “vive com Deus”, tem dois filhos, sete netos e muito gosto pelo trato com a terra. 
