Home » Notícias » Gente que faz » Mulher de atitude
 
Mulher de atitude PDF Imprimir E-mail
Sáb, 03 de Janeiro de 2009 17:18

Em uma semana, Ilma Cândida Sobrinho conseguiu tirar a Defesa Civil de Brumadinho do papel. Ação salvou a vida de moradores que viviam em áreas de risco - Ilma Cândida Sobrinho, Coordenadora da Defesa Civil de Brumadinho

Uma natureza enfurecida, com garras e fome de leoa. Uma fúria de águas que varrem toda a imponência e ousadia de uma cidade, deixando como registro de sua passagem a fragilidade de casas e ruas. E os rastros são cruéis: mortes, desabrigados e desalojados. Para esse combate inevitável, muitas armas podem ser inúteis, mas uma é indispensável: a Defesa Civil de uma região, que funciona como âncora e ombro amigo diante de dilúvios jamais esquecidos. “Mas elas não podem existir apenas no papel, têm que ser atuantes e fortes para salvar vidas.” A observação é de Ilma Cândida Sobrinho, de 53 anos, que arregaçou as mangas e ativou em uma semana, antes da enchente histórica em Brumadinho, na Grande BH, o órgão municipal, evitando um quadro trágico.

Em 24 e 25 de novembro de 2008, Ilma participou de um seminário em que o meteorologista Ruibrant dos Reis alertou para um volume alto de chuvas na cidade de Brumadinho, que poderia causar enchentes e muita tragédia. Preocupada com a má notícia, Ilma procurou a Defesa Civil do município, que, para a sua surpresa, só existia no papel. “Isso acontece muito, decretam o órgão apenas para captar recursos”, reclama, acrescentando que, na época, conversou com o procurador-geral do município, que lhe autorizou a reativar o conselho e começar as ações. “Fizemos, em uma semana, o estudo que era para ser feito durante todo o ano.”

Com quatro pessoas na ativa, Ilma tornou-se coordenadora da Defesa Civil de Brumadinho e revela que não foi só a força de vontade que a ajudou a evitar muitas tragédias, mas, também, a intuição. Na segunda-feira 15 de dezembro, ela, temendo a forte chuva prevista, e já com o mapeamento das áreas de riscos em mãos, retirou três famílias de imóveis que poderiam desabar. “Hoje sei que, se não tivesse feito isso, certamente uma delas ficaria soterrada”, reconhece. Na quarta-feira dia 17, a previsão se confirmou: Brumadinho foi alagada pelas águas do Rio Paraopeba, que chegou a subir 10 metros. A família de Alessandra Silva dos Santos foi uma das que foram retiradas antecipadamente. “Se estivesse lá quando a tempestade chegou, eu e os meus cinco filhos não sobreviveríamos.”

Nesse dia, centenas de casas ficaram submersas e o único caminho para chegar à cidade era passando pelo Bairro Bandeirinhas, em Betim, na Grande BH, e, em seguida, percorrendo 25 quilômetros de estrada de terra. Cerca de 2.000 pessoas ficaram desalojadas, 200 famílias desabrigadas, 25 casas totalmente danificadas e quatro pontes atingidas, sendo que duas delas foram levadas pelas correntezas. Ilma acionou centenas de voluntários, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e a Defesa Civil do estado. “Já tínhamos avisado todos os habitantes, por isso, eles estavam preparados. Mesmo assim, foi uma loucura, porque a nossa preocupação de salvar todos era imensa, tanto é que fui à rádio da cidade pedir ajuda da comunidade”, conta e ressalta: “Todas as vidas conseguimos salvar, mas muitos patrimônios foram perdidos”.

Dias depois, em constante alerta, a Defesa Civil não permitiu que os desalojados voltassem para as suas casas, porém, muitos não cumpriram o pedido. Assim, no domingo 28, uma nova forte chuva atingiu a cidade e, mais uma vez, o trabalho do órgão, das 14h até a madrugada de segunda-feira , foi intenso. “A resistência das pessoas em acatar nossas orientações é um dos grandes entraves, pois voltam para as moradias, mesmo que elas estejam em alto risco. Por isso, temos que ter pulso firme”, admite, exemplificando o caso de uma mãe que, mesmo correndo perigo onde mora com três filhos, não quis abandonar o lugar. “Acionei o Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente para a retirada dos menores, só assim ela cedeu.” No outro dia, também seguindo sua intuição, ela pediu ao Corpo de Bombeiros uma outra vistoria nas casas e foi surpreendida com o seguinte resultado: muitas residências, antes sem problemas, também corriam riscos, assim 380 foram interditadas.

PREVENDO TRAGÉDIAS A previsão do tempo avisa para futuras tempestades no município. Ilma já está em alerta. Para este ano, ela já providenciou um projeto para a cidade que será apresentado ao governo estadual, neste mês, para que sejam liberados recursos. A ideia é criar um conjunto habitacional onde irão morar os desabrigados. Serão apartamentos com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. “Na nossa avaliação, seriam aproximadamente R$ 15 mil por moradia”, antecipa, dizendo que, em 2009, a meta é eliminar os problemas de inundação. “O objetivo não é consertar estragos e, sim, reparar erros de administração passadas, que não fiscalizaram corretamente as áreas de ocupação”, revela. “A melhor Defesa Civil é aquela que sabe lidar com os problemas, sem perder a calma e o controle, pensando sempre no lado humano da situação. Se não houvéssemos ativado a nossa, Brumadinho teria vivido uma tragédia.”

EXCEÇÂO O trabalho de Ilma é exceção em Minas Gerais. Dos 853 municípios do estado, apenas 603 têm o órgão e, destes, menos de 100 funcionam corretamente. No fim de 2008, o governador Aécio Neves anunciou o repasse de R$ 20 milhões para cidades mais atingidas pela chuvas. Mas só receberão recursos a Defesa Civil que for atuante, apresentando projetos com os principais danos e o que será feito para repará-los.

PRÊMIOS Além de coordenadora de uma das Defesas Civis mais atuantes em Minas Gerais, Ilma Cândida é, há 3 anos, presidente do Conselho Municipal de Defesa da Mulher, em que, segundo ela, atua com sensibilidade e muita responsabilidade. Há 20 anos, é responsável pelo Conselho de Segurança Pública de Brumadinho, trabalho que já foi premiado pelo Corpo de Bombeiros e pela Polícia Militar, em que foi considerada colaboradora benemérita do estado. “Só cumpro a minha missão. Não me dê algo de faixada, porque comigo não há braços cruzados e muito menos preguiça, se é para fazer, que se faça da melhor forma possível.”

Fonte: EM