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Do barro nasce o talento PDF Imprimir E-mail
Dom, 19 de Outubro de 2008 10:44
Artesãos do Vale do Jequitinhonha, de mãos calejadas mas sensíveis, mostram como transformam a argila em obras de arte admiradas e premiadas até mesmo no exterior
Ponto dos Volantes - O Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres do país, onde a fome e a seca são companheiras de várias famílias, recebe o título de uma das áreas mais ricas do Brasil quando o tema é manifestação artística. Das mãos de artesãos, principalmente os de Santana do Araçuaí, distrito de Ponto dos Volantes, a 635 quilômetros de Belo Horizonte, nascem peças de barro que enfeitam desde as simples casas mineiras às cobiçadas prateleiras de galerias de arte da Europa e dos Estados Unidos. A transformação da matéria-prima em cerâmicas decorativas, como bonecos em tamanho natural, ou usadas no dia-a-dia de muitos lares, entre elas panelas e potes para guardar mantimentos, é feita com técnica primitiva, mantendo vivo um processo secular.


O barro, depois de moído e colocado para secar, é molhado e está pronto para ganhar diferentes formas nas mãos dos artistas. As imagens mais famosas são criadas por dona Izabel Mendes da Cunha, de 85 anos. De baixa estatura, pele escura e cabelo sempre protegido por um colorido lenço, ela é a artesã mais conhecida e respeitada do Jequitinhonha. Suas peças conquistaram outros continentes e o talento foi reconhecido na sétima edição do Prêmio Unesco de Artesanato para América Latina e Caribe, disputado em 2004 por representantes de 16 países. Gente da terra, ela usa “o raro dom para reiventar”, como diz uma placa, instalada em sua homenagem na praça do distrito, “o homem e a mulher do Jardim do Éden”.

As bonecas de Izabel, ricas em detalhes, impressionam os admiradores. E disposição para dividir o conhecimento com os vizinhos é o que não falta à artesã, que ensinou dezenas deles a manusear a argila. Uma das aprendizes é dona Iracema Pereira Neres, de 78, amiga de décadas da ilustre moradora do arraial. Ela fez a primeira cerâmica há 50 anos e, hoje, repassa o conhecimento à filha mais velha, Irene Alves, de 58. Enquanto produzem algumas obras, mãe e filha se divertem em gostosos bate-papos. Alguns, regados ao tradicional café quentinho, principalmente quando recebem visitas. “Uma das peças de que mais gosto de fazer é a do Lula”, conta Iracema, enquanto mostra, orgulhosa, uma das imagens que fez do presidente da República.

Mas artesão do Jequitinhonha que se preze também produz cerâmicas que retratam a religião, marca forte do Vale. “Aquela é a do Divino”, aponta Iracema. O ateliê dela fica no fundo da casa simples. Lá estão os sacos de barro e o imenso forno, usado para dar maior “consistência” às peças, depois de prontas. Aliás, difícil ver em Santana do Araçuaí um quintal sem forno. Parte das peças é exposta na associação, criada em 1989 pelos moradores, que se revezam na limpeza do local. Os artistas recebem de braços abertos quem enfrenta os 10 quilômetros de estrada de chão para chegar ao endereço, seja apenas para apreciar as obras ou levá-las para casa. São tantas imagens que alguns admiradores passam boa parte da manhã ou da tarde na associação.

E não importa se a associação esteja fechada. Basta chamar dona Maria Leni de Jesus Matos, de 39, na casa em frente. Solicita, ela atravessa a rua e abre a porta do imóvel com prazer. Da mesma forma, as janelas de madeira. A entrada da luz natural no cômodo é a senha para que o visitante comece a admirar as obras feitas no vilarejo. “O artesanato, para nós, é a principal fonte de renda. Gosto mais de fazer essas galinhas (usadas para guardar ovos). Na minha opinião, as que têm o pescoço de lado são mais bonitas”, acrescenta a mulher, que também aprendeu o que sabe com dona Izabel.

“A técnica é repassada através de gerações. Os artesãos respeitam muito o saber dos mais velhos. O artesanato no Vale do Jequitinhonha é de qualidade e importante para dar visibilidade mundial à região. Além disso, é uma fonte de renda importante para os moradores. Comunidades inteiras vivem dele, sendo, em vários casos, uma alternativa à agricultura, que pena na região com questões climáticas”, diz Rodrigo Narciso, da Central Mãos de Minas, uma associação sem fins lucrativos, criada em 1983 para ajudar na divulgação e comercialização do artesanato mineiro.

Hoje, a entidade conta com mais de sete mil artesãos associados e comemora um título: segundo a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), o estado participa com 60% do artesanato vendido para fora do país. “O Vale contribui com boa parcela do percentual”, acrescenta Rodrigo.