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Moeda social substitui dinheiro PDF Imprimir E-mail
Dom, 09 de Novembro de 2008 17:46

Uberlândia – O mundo financeiro mudou. As bolsas encolheram, moedas esvaziaram-se e grandes bancos desapareceram do mapa. No Brasil, existem, porém, 33 comunidades que dão as costas para o que acontece no resto do planeta. Se consultadas, seriam capazes de dar lições de economia aos poderosos.

Elas imprimem o seu próprio dinheiro, só compram com desconto e emprestam a menos de 1% ao mês. Não é pouca coisa. A chamada economia solidária já conta com 35 bancos e cinco moedas próprias em circulação. No lugar do real, entram papéis alternativos, como a palmas, o bem, a terra ou a oração, que chegam a valer mais do que a moeda oficial do país.

Dentro do sistema de economia solidária, não existe crise financeira. Nem internacional, nem local. O funcionamento é simples: em vez de pagar em reais, o consumidor usa a moeda social em circulação no seu bairro ou cidade. No comércio local, ele ganha desconto ao pagar com esse dinheiro. Já o comerciante pode desfazer a troca no banco social, se tiver necessidade de fazer compras fora da comunidade. “Com isso, a riqueza fica dentro do bairro, pois o pagamento em palmas ou orações não tem valor fora dali”, observa. É o oposto da economia globalizada, onde o investidor só aplica no Brasil se ele for o país mais rentável no momento. “Durante uma crise, os investimentos evaporam, porque não há nenhum vínculo com o país ou com a comunidade. A riqueza muda muito rapidamente de lugar”, compara Peterson Gandolfi, professor de administração da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

A primeira experiência com moeda social de Minas Gerais está instalada em Uberlândia, na rica região do Triângulo Mineiro. Quem colabora na organização não-governamental (ONG) Ação Moradia recebe o pagamento pelas horas trabalhadas em hora-ação, o nome oficial da moeda. Em mineirês, foi encurtado para oração. Na prática, cada hora de colaboração na cozinha, na limpeza ou na costura corresponde a uma oração. “No começo, o marido da minha colega ficou revoltado. Achou que ela estava ganhando só em orações e reclamou que oração a gente recebe é na igreja”, brinca Enilda Pereira de Andrade, de 31 anos, que colabora na horta. Com o tempo, Enilda passou a achar mais bonito receber o salário em moeda solidária. “Aqui dentro, a oração vale do mesmo jeito que o real”, completa.

Com as cédulas na mão, devidamente numeradas e plastificadas, é possível trocar por mercadorias usadas no bazar, que recebe doações de eletrodomésticos, móveis e computadores das empresas da região. Na tabela de preços, um par de meias vale duas orações, um fogão sobe para 50 orações e o computador atinge o teto de 70 orações. “Nenhuma comunidade é tão pobre que não consiga gerar sua própria riqueza. O problema é que o trabalhador gasta o seu salário mínimo no supermercado das grandes redes, em vez de dar preferência para o mercadinho do bairro. Com a moeda alternativa, o dinheiro forçosamente vai ficar dentro da comunidade e circular lá dentro. Quem quiser comprar fora terá de trocar por reais”, explica o empresário Oswaldo Cetti, que fundou a entidade com a mulher, Eliana Maria Carrijo Setti. No caso dele, a moeda social também minimizou o dilema na hora de distribuir as doações de bens de maior valor e ajudou a captar mais horas de trabalho “voluntário” entre as pessoas da comunidade.

DISCÓRDIA O uso da moeda social, porém, nem sempre é sinônimo de satisfação garantida dos consumidores. Mas as crises na economia solidária, como queria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não passam de suaves marolinhas, perto do vendaval financeiro que assusta o planeta nos últimos meses. É o caso, por exemplo, da disputa pelo fogão de seis bocas, seminovo, que gerou discórdia entre as voluntárias da Ação Moradia. “Sonhei com o fogão e me empenhei dia e noite na costura, fiz o jardim, trabalhei duro na quermesse. Juntei 180 orações, mas quem acabou levando foi outra, que tinha apenas 40 horas”, protesta Irene Duarte Fonseca, 30 anos. Ela não se contentou em tirar o tanquinho, o colchão de casal, o computador e o vasilhame em substituição ao objeto de desejo. E já entrou na fila de espera pelo novo fogão recebido em doação pela comunidade.

“O que falta nos mercados financeiros mundiais é um pouco de solidariedade, que o banco social vem trazer. Não posso abrir mão disso”, defende Virgínia Pereira Gomes. Espécie de presidente do Banco Central local, que guarda a chave do cofre, ela baixou a portaria da “medida da necessidade”, que serviu como critério de desempate. 

Bom, seguro e sempre solidário

O 15 de setembro de 2008 já entrou para a história como o marco do maior crash internacional depois de 1929. Nesse dia, o mundo percebeu o alcance da quebradeira quando o Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos americano, pediu concordata. Não há risco de nada parecido ocorrer com nenhum dos 35 bancos comunitários brasileiros que, do dia para a noite, se tornaram as únicas instituições realmente sólidas no mercado. Só por um motivo: a garantia é de outra ordem, não-financeira. “Aqui não há como ocorrer o subprime americano (traduzido como distribuir empréstimos imobiliários a quem não tem condições de pagar). Antes de emprestar, o banco vai lá na casa dele e pergunta para o vizinho e para a sogra se o fulano é bom pagador, se ele costuma atrasar as contas. Com isso, consegue fazer uma avaliação de cadastro mais profunda do que o sistema internacional de crédito”, diz Peter Gandolf, da UFU.

Nos bancos sociais, a inadimplência acima de 60 dias é perto de zero. Em média, o atraso nas prestações não passa de 10 dias. “Quem ficou devendo dá um jeito de arranjar dinheiro, pega emprestado com parentes para não ficar inadimplente com o banco e nem sujar o nome. Ele sabe que atrasar no banco é coisa séria, pois o dinheiro é da comunidade, é dele”, explica o professor da UFU. Também o critério de cessão dos créditos é outro, proporcional à necessidade do tomador. “Os critérios são definidos por agentes de crédito escolhidos pela comunidade. Não é porque o mundo está caindo que o banco vai negar o financiamento de R$ 500 para o pipoqueiro que precisa comprar um novo carrinho para trabalhar. Se o dinheiro está mais curto e falta liquidez no mercado, ele terá preferência”, completa.

As comunidades também sofrem com as oscilações do real, porque as moedas sociais têm paridade com a moeda oficial. Para cada oração ou palma, o banco social tem um real guardado em caixa. Isso garante que as moedas sejam lastreadas em reais e mantém os bancos dentro da lei – que restringe a emissão de dinheiro ao Banco Central (BC).

Mas as regras comuns das notas de real caem por terra diante da realidade. “Se o tráfico matou três filhos de um correntista, caso verdadeiro que ocorreu em nosso banco, foi feita uma renegociação da dívida em mais prestações. No banco tradicional, ele passaria a ser um inadimplente. A decisão passou pelo crivo das pessoas da comunidade, que assumem o compromisso de manter o banco funcionando, de acordo com a disponibilidade de caixa”, informa Leonora Laiboissière Mol, presidente do Banco Bem, de Vitória, no Espírito Santo, o primeiro da Região Sudeste.

VALORES Em três anos, o modelo do Banco Bem já foi replicado no Banco Terra e Banco Verde Vida, em Vila Velha, e no Banco Sol, em Cariacica. A proposta de abrir um banco social chegou a ser apresentada em Uberlândia, mas não foi para frente. A entidade recusou também o projeto de instalar uma filial do Banco Popular do Brasil, subsidiária do Banco do Brasil voltado para o microcrédito. “O BB estava mais interessado em dar empréstimos aos moradores, a juros que variam de 1,5% a 3,5% ao mês. Não havia uma contrapartida”, reclama Oswaldo Cetti. Segundo ele, algumas vezes não adianta explicar a proposta da entidade. “Nessa altura da vida, o dinheiro além do necessário perde o sentido. De herança, quero deixar outros valores”, conclui.