Blog Léo Quintino
| Receita de determinação |
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| Sex, 13 de Fevereiro de 2009 07:46 |
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Os livros sempre foram devorados com apetite de leão – principalmente no início da adolescência, quando as obras de Machado de Assis traziam a cultura para perto. Ao mesmo tempo, a fome mais cruel, a do estômago, era enganada com sobras da caridade alheia, sob viadutos ou nas ruas da cidade. Em meio à disputa entre a busca pelo conhecimento e a luta pela sobrevivência, o sonho de estudar medicina se manteve inabalável, cada vez mais real. Hoje, cursando o 2º período numa faculdade de Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o futuro clínico-geral José Paulo dos Santos, de 35 anos, dá um sorriso tímido e vitorioso ao contar a trajetória que o conduziu à sala de aula. Na sua história barra-pesada, embora narrada com doçura, há instantes dignos de um livro que, com certeza, seria permeado pela força da determinação e da dignidade. No laboratório de anatomia da Faculdade da Saúde e Ecologia Humana (Faseh), no Bairro Célvia, em Vespasiano, José Paulo mostra que se sente em casa. Movido pela sede de aprender e pela atenção, ele consulta um livro de neurociência, tira dúvidas com um professor e tem absoluta certeza de que está no caminho certo. “Desde criança tinha vontade de cursar medicina, mesmo certo de que seria um grande desafio. Afinal, passei por situações que me conduziriam a muitos locais, menos a esse destino”, conta, sem posar de vítima, o estudante, que tem dois filhos, de 14 e 12 anos, e mora na capital com a mulher, que estuda pedagogia. Na Faseh, ele entrou pela excelente média (89,33%) conquistada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o que lhe garantiu também bolsa de estudos pelo Programa Universidade Para Todos (ProUni). A história de José Paulo começa em Salvador (BA), onde o primogênito de uma família de sete filhos vivia na companhia do pai, pedreiro, e da mãe, lavadeira. “Quando eu tinha dois anos e apenas uma irmã, meus pais se mudaram para Governador Valadares, no Leste de Minas, onde tínhamos parentes. Oito anos depois, já com a família completa, eles resolveram seguir para Vitória”. Na capital capixaba, começou um calvário que levou à completa desestruturação do lar. Os pais entraram de cabeça no álcool e abandonaram os filhos, que não tiveram outra saída senão recorrer à mendicância. “O único jeito era pedir comida e roupas. Nunca usei droga e nunca roubei. Afinal, pensava: se eu já tinha problemas demais, para que arrumar outros?”, revela com os olhos brilhantes. Sentindo-se responsável pelas cinco irmãs e um irmão, José Paulo e sua família retornaram em 1986 para Governador Valadares, onde os problemas pioraram, pois, por falta de pagamento, os pais perderam a casa financiada pelo antigo Banco Nacional de Habitação (BNH) e foram viver ao relento. Nessas idas e vindas, três irmãs desapareceram e delas não se teve mais notícia, conta o estudante. Mesmo com essa agonia, José Paulo nunca deixou de estudar, indo à aula diariamente e pegando livros emprestados em bibliotecas públicas. Nessa época, teve a ajuda de um pastor presbiteriano de quem é amigo até hoje. Para concluir o supletivo do então 2º grau (atual ensino médio) e continuar pulando os obstáculos, trabalhou como office-boy, vendedor de picolé e engraxate. NINGUÉM Com a morte do pai, o jovem, já com o primeiro filho, decidiu morar em BH, com a consciência tranquila: “Tirei o meu pai da rua três vezes, aluguei um barraco para ele morar, mas não teve jeito”. Matando um leão por dia, nada de esmorecer nem de se esquecer das lições da vida na rua, que fazem a pessoa perder a identidade e se tornar o que o próprio José Paulo classifica como um “não-ninguém”. Diante do olhar curioso, ele explica com rapidez e articulação: “Ser um não-ninguém é pior do que o joão-ninguém, pois este, pelo menos, tem o nome de João”. Na capital, José Paulo deu aulas particulares de química e passou, em 1996, no vestibular para biologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Fez dois anos, enquanto morava na Pedreira Prado Lopes, na Região Noroeste. Em 2003, passou em enfermagem, na mesma instituição, e aguentou só um ano. “O que eu queria mesmo era medicina, e fiz sete vestibulares, sem sucesso”, recorda-se. A grande chance veio em 2008, com a prova do Enem e a inscrição em quatro faculdades – Souza Marques (RJ), Ciências Médicas e Unifenas (BH) e Faseh. Foi para o Rio, mas a barra pesou novamente, pois se mantinha e à família, que ficou em BH, com os R$ 300 da bolsa. Sem perder o fôlego, conseguiu a única vaga oferecida na faculdade de Vespasiano, em agosto. “Até agora, a minha vontade é, depois de formado, voltar para Governador Valadares e trabalhar como clínico-geral. Mas tudo pode mudar. Só quero mesmo é dar a meus filhos uma vida que não tive. Só desistirei dos meus sonhos se morrer”, revela. O coordenador do curso de medicina da Faseh, professor João Lúcio dos Santos Júnior, diz que José Paulo é um exemplo de perseverança e de vida. “E é sempre muito frequente às aulas”, testemunha.
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| Última atualização em Sex, 13 de Fevereiro de 2009 08:09 |



Jovem que já morou na rua e viveu da caridade alheia conta como conseguiu, contra todos os prognósticos, tornar realidade o sonho de criança de cursar a faculdade de medicina
