Home » Notícias » Educação » Dois terços dos analfabetos brasileiros vivem em centros urbanos
 
Dois terços dos analfabetos brasileiros vivem em centros urbanos PDF Imprimir E-mail
Seg, 25 de Maio de 2009 09:20
Benedita, cozinheira de 54 anos, compartilha com outras 182 mil pessoas, em BH, o drama de não saber escrever. Segundo o IBGE, dois terços dos analfabetos do Brasil vivem em cidades.

As mãos que embalam os filhos, cozinham do bom e do melhor e pagam impostos em dia ainda são incapazes de assinar o próprio nome, escrever bilhetes ou preencher um documento. Os olhos atentos ao noticiário da televisão, às placas de rua e a tantos símbolos da metrópole não conseguem ler um livro, os classificados do jornal ou uma carta de amor.
 
E essa realidade não está restrita aos confins do país nem aos grotões de Minas. Pelo contrário, está mais próxima do que os cidadãos letrados imaginam. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que um em cada 10 brasileiros é analfabeto – o equivalente a 14,1 milhões da população com 15 anos de idade ou mais – e cerca de dois terços dessas pessoas estão nas cidades, e não nas zonas rurais. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, há 182 mil excluídos do mundo das letras, dos quais 95% vivem nos centros urbanos. 
 
A história de Benedita (nome fictício), de 54 anos, ilustra essa dramática realidade e mostra o porquê de tantos brasileiros ainda continuarem sem acesso às palavras escritas. Moradora do Bairro Jaqueline, na Região Norte da capital, ela não esconde os dedos fortes e calejados,que seguram firme a colher de pau e o tacho de cobre no fogão. Mas, sobre a folha de papel em branco, faltam a essas mãos intimidade com o lápis. “Nunca fui à escola porque minha mãe morreu cedo e eu tive que assumir a casa. A gente morava na roça, trabalhava para um fazendeiro e era obrigada, ainda criança, a capinar o chão duro. À noite, não tinha forças para nada. Para piorar a situação, a única sala de aula era longe e não tinha ninguém para incentivar nosso estudo”, conta. 

A falta de estudos não impediu Benedita de se mudar para a capital ainda adolescente e virar uma cozinheira, diarista, salgadeira e doceira de mão cheia. Mas a faz sentir um frio na barriga a cada eleição, consulta médica ou uma simples ida ao banco. “Eu começo a suar e me dá uma tremedeira só de pensar que alguém vai me pedir para preencher uma ficha ou assinar o meu nome. É uma vergonha imensa”, lamenta ela.
Mas o maior constrangimento vivido por Benedita foi ter que ditar, a uma amiga, declarações de amor para o namorado. “Ele morava em Curvelo e sempre mandava cartas e bilhetes. Eu não tinha outra saída, senão recorrer a uma colega para ler as mensagens para mim e escrever as respostas”, diz, acrescentado: “Se eu conhecesse as letras, tenho certeza de que a minha vida teria sido outra. Sou obrigada a guardar receitas de cabeça, porque não posso recorrer aos livros e revistas de cozinha”. 

Metas
Para tirar da escuridão do analfabetismo os 14,1 milhões de brasileiros com mais de 15 anos de idade que, assim como Benedita, não sabem conjugar os verbos ler e escrever, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) alerta para a necessidade de vontade política e pulso firme na implantação de projetos. Esses dois ingredientes são apontados pela entidade como essenciais para que o país consiga cumprir uma das Metas do Milênio, traçadas no ano 2000, durante a Conferência Mundial de Educação, em Dacar. Num pacto para melhorar a qualidade do ensino, o Brasil assinou, com outros 128 países, o compromisso de reduzir pela metade a taxa de analfabetismo no país até 2015, chegando a 6,7%. 

Segundo o especialista em educação de jovens e adultos da Unesco, Timothy Ireland, o grande desafio do Brasil é manter o ritmo atual de redução da população analfabeta. “A queda hoje está na casa de 0,55% por ano, o que significa que o Brasil tem chances de chegar a 2015 com taxa de analfabetismo de 5,6%. Mas não se pode querer apenas melhorar as estatísticas, é preciso oferecer oportunidades reais para que as pessoas saibam ler e escrever. Por isso, uma outra barreira a ser vencida é acabar com o analfabetismo funcional, que é quando a pessoa sabe decodificar letras e números, mas não é capaz de interpretar um texto ou fazer operações básicas da matemática. E o Brasil tem hoje cerca de 60 milhões de cidadãos que não concluíram o ensino fundamental”, diz Timothy. 

Na luta pelo acesso às salas de aula, o Ministério da Educação (MEC) aposta em programas como o Brasil Alfabetizado para levar conhecimento a 1,5 milhão de pessoas até dezembro, nas 123 mil turmas do programa espalhadas pelo país. “O Brasil Alfabetizado foi reformulado há dois anos e passamos a considerar prioritários quase 2 mil municípios com índice de analfabetismo igual ou superior a 25%.
 
Outra meta é vencer o problema da consolidação do conhecimento no adulto, por isso há altos investimentos no programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) para que as pessoas possam dar continuidade aos estudos depois de vencer a etapa inicial da alfabetização. O acesso à educação é um processo transformador da vida das pessoas, que passam a ter direito à cidadania plena”, afirma o diretor de políticas de educação de jovens e adultos da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, Jorge Teles.