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Retratos do Brasil - Gabriela, a menina invisível PDF Imprimir E-mail
Qua, 17 de Dezembro de 2008 17:13

Ela é vizinha da ciência e do poder. Eles são vizinhos do invisível.

Ela está com cinco anos de idade e o rosto encardido de lama. Eles estão limpos, são políticos, professores e estudantes.

Ela nunca foi à escola e veste apenas uma calcinha vermelha rasgada.

Eles andam de terno e despacham documentos. Ela não tem documento.

Gabriela não existe. Cresce sem certidão de nascimento num barraco sem fogão nem banheiro entre o Palácio da Alvorada e a Universidade de Brasília.“O que é universidade?”, pergunta a mãe da menina, Joana Monteiro, 24 anos, envergonhada pelas três marcas que o destino lhe reservou: a cicatriz de um tiro no rosto, a cegueira diante das letras e o vexame de se aliviar no meio do mato.

“Pra que documento? A gente vive que nem bicho”, desabafa a mulher de pela clara enrugada pela miséria. Hoje vamos comer o mesmo que ontem: arroz”. “Não gosto de arroz”, emenda a filha com a barriga inchada pela verminose.

Gabriela não mora numa favela perigosa, nem num grotão inacessível. Seu corpo perseguido por moscas e mosquitos está bem ali ao alcance da vista de seus vizinhos sabidos.

Nunca nenhum a visitou. Nem os que fazem as políticas públicas. Nem os que as estudam. “Quando eu crescer vou estudar. Quero ser igual a minha mãe e ao meu pai”, planeja a herdeira de Joana e de um catador de lixo, cujo maior patrimônio é um pangaré sem nome.

A história de Gabriela é a primeira de uma série de reportagens quinzenais sobre crianças condenadas desde o berço a viver ao lado. Ao lado do campus. Ao lado dos palácios. Nunca dentro deles.

Também a cada 15 dias professores da Universidade de Brasília escreverão neste blog sobre educação, meio ambiente, segurança pública, saúde e política externa.

Ana Beatriz Magno é repórter, mãe de dois filhos, cobre temas relacionados à infância e ganhou importantes prêmios jornalísticos – Embratel, Rei da Espanha, Herzog, Libero Badaró. Em 9 de dezembro de 2008, ela conquistou com o fotógrafo José Varella o Premio Esso de Reportagem pelo trabalho "Brinquedos dos Anjos". Bia é secretária-executiva de comunicação da Universidade de Brasília.
Fonte: Noblat