Blog Léo Quintino
| Um ano em busca de internação no SUS |
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| Dom, 04 de Janeiro de 2009 16:19 |
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Um ano perdido na vida de Maria das Graças de Souza, de 53 anos, na luta para sobreviver com dignidade. Dias de dor, noites insones, semanas de espera por um telefonema e meses de expectativa. De janeiro a dezembro, a aposentada por invalidez, moradora do Bairro Itaipu, na Região do Barreiro, em Belo Horizonte, passou por um calvário para tentar conseguir, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que comemora seus 20 anos de criação, uma internação de preparação para retirar três hérnias instaladas no intestino. Ela tem hipertensão e diabetes. Sem controlá-los, não pode ser operada. Enfrentou a burocracia, longas viagens de casa aos hospitais e postos de saúde e nada conseguiu. Com o fim de 2008, Maria das Graças tem a estranha sensação de ter voltado ao ponto de partida, à estaca zero. Mas se mantém forte, de pé, apoiada num restinho de esperança. Durante todo o ano que passou, o Estado de Minas acompanhou a via-crúcis de Maria das Graças, conhecida como dona Graça, e documentou a sua busca incessante pelo direito à saúde. Ela sonha em se ver livre de um transtorno – três hérnias no intestino – que a impede de se movimentar com destreza e que causa muito sofrimento. Há pelo menos três anos, trava uma luta contínua para conseguir seu objetivo. Ao mesmo tempo em que se escora na idéia fixa de se tratar, Maria das Graças carrega no corpo outros males que a impedem de operar sem antes passar por uma internação: diabetes, hipertensão e excesso de peso. Para entrar no bloco cirúrgico com segurança, deve apresentar bons níveis de pressão arterial, glicose e peso ideal. E para isso, precisa de acompanhamento médico, acesso garantido e contínuo aos profissionais que vão lhe ajudar a tratar da saúde, mas não consegue. “É como se a culpa de todo o meu problema fosse minha. Mas já emagreci e melhorei os níveis de glicose. Agora, com a vida estressante que tenho, baixar a pressão é difícil. Quero me internar, para meu quadro se estabilizar e, enfim, ser operada, mas no SUS não consigo”, desabafa. Mãe de três filhos, nascidos de cesarianas: Valquíria, de 30, Valdinei, de 28, e Valnice, de 25, dona Graça começou a ter problemas de saúde dois anos depois que a filha caçula nasceu. Descobriu que tinha um cisto no ovário, mas na época não quis operar, pois temia ficar afastada do trabalho sem receber o auxílio-doença. “Estava construindo nosso barração e não poderia ficar sem receber. Fui levando a vida, convivendo com a dor na barriga”, lembra. Com o decorrer do tempo, a dor aumentou e ela foi operada, para retirada do ovário, pelo médico Ricardo Wagner Figueiredo, em 2 de maio de 1992, no Hospital Júlia Kubitesck, na Região do Barreiro. Trabalhava como faxineira no quartel da Polícia Militar do Bairro Prado, na Região Oeste da capital, e carregava máquinas e baldes pesados para fazer a limpeza, até que, em 1994, precisou ser operada às pressas, porque estava com obstrução intestinal causada por uma hérnia. Para corrigir o problema foi instalada uma tela de prótese cirúrgica em torno da hérnia. Logo que saiu do hospital, sentiu que havia um nódulo no local da cirurgia. “O médico que me examinou na época disse que o meu corpo havia rejeitado a tela e que deveria operar. Pesava 116 quilos e fui orientada a perder peso. Emagreci 22 quilos, mas o profissional na época me tratou muito mal. Disse que ainda estava gorda e que não viveria mais de um mês.” FAMÍLIA Em 2003, a hérnia voltou a incomodar e, sentindo muita dor, ela foi levada ao Hospital Municipal Alcina Campos, em Ibirité, na Grande BH, e foi encaminhada para cirurgia na Santa Casa. Passou por nova tomografia, na Clínica Martins Godoy, na Região de Venda Nova. Apesar do problema, abriu mão de sua condição de paciente e se dedicou a cuidar da saúde da família. Nesse período, o filho Valdinei esteve à beira morte, com miastenia grave. Valquíria operou de pedra na vesícula e de hérnia no estômago e Valnice fez cirurgia de hérnia no umbigo e retirou a vesícula. Somente em 2005 Maria das Graças teve condições de encarar novamente seu calvário no SUS. Sofre há três anos e oito meses com hemorragia ginecológica e cumpre sua via-crúcis para retirar as hérnias. O EM acompanhou os longos capítulos dessa história, que termina no lugar em que começou: na esperança de tentar um dia ser operada. No último dia do ano, dona Graça refletiu sobre sua infrutífera caminhada em 2008 e não conseguiu segurar o choro. “É muito frustrante. Não gosto nem de lembrar de cada investida que fiz para resolver os problemas e acabo no mesmo lugar, presa a uma situação sem saída. Se tivesse dinheiro já teria resolvido tudo. Vou continuar tentando. Espero que algum dia apareça alguém para me ajudar”, confia. Fonte: EM |



Aposentada de 53 anos passou todo o ano de 2008 na fila de internação, pelo SUS, para retirar três hérnias do intestino. Uma luta desesperada, que em nada resultou
