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É plano de saúde, mas tem cara de SUS PDF Imprimir E-mail
Seg, 12 de Abril de 2010 15:38

Nas salas de urgência e emergência dos hospitais de Belo Horizonte, os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) não são os únicos a esperar horas a fio por uma consulta médica.

A rede particular está superlotada e o consumidor, que chega a pagar R$ 500 ou mais pela mensalidade de um plano de saúde, na expectativa de ter atendimento médico mais ágil, nem sempre percebe o retorno do investimento.

Em alguns casos, a espera em filas dos hospitais privados chega a ultrapassar seis horas – e há casos de um dia inteiro. Na antessala, o que se vê são pacientes nervosos e familiares indignados.

O problema se tornou tão crônico que o sistema particular já está lançando mão de procedimentos próprios da rede pública, como a triagem de pacientes.
A expectativa é que a procura pelas urgências cresça ainda mais nos próximos dias, já que, de março a junho, historicamente, a demanda na saúde chega a crescer 40%, em função da mudança do clima. Epidemias sazonais como dengue são outro agravante. Os hospitais particulares admitem que a superlotação passou a ser um desafio também para o sistema de saúde suplementar.

A reportagem do Estado de Minas percorreu hospitais de Belo Horizonte e constatou que a reclamação de pacientes, como a cuidadora de idosos Ana Aparecida Duarte, atinge de forma mais ou menos grave grande parte do sistema. Há seis anos, ela contratou um plano de saúde, mas não conseguiu usar o serviço.

Com suspeita de ter contraído a dengue pela segunda vez, tentou ir a um consultório médico. “Não consegui. Para marcar um clínico, é preciso aguardar de 15 dias a um mês, e eu estava me sentindo muito mal ”, diz.

No pronto-atendimento privado da Santa Casa Saúde, não foi diferente. Depois de ficar a metade do dia esperando, Ana desistiu. “Passei por uma triagem e cansei de esperar. Acabei indo para o SUS. Lá consegui ser atendida com mais rapidez. Pela rede pública, fiz a consulta e todos os exames.

Constataram que, de fato, eu estava com a doença”, conta, indignada. O analista de crédito Thiago Oliveira também está com dengue e, no mesmo local, chegou a passar um dia inteiro aguardando sua vez. “É claro que não estou correndo risco de morrer, mas estou com muita dor. Acho um absurdo esta demora. Se atrasamos um dia a mensalidade, eles cancelam o atendimento”, aponta o consumidor, que paga mais de R$ 600 para a família de três pessoas.

O ex-presidente da Associação Mineira dos Hospitais de Minas Gerais e atual presidente do Instituto Brasileiro de Desenvol-vimento e Estudos do Setor de Saúde (Ibdees), Carlos Eduardo Ferreira, afirma que o problema é real e que a demora na rede privada, tão longa quanto na rede pública, está sendo tema de discussão no Ibdees, que representa tanto os hospitais quanto os demais setores da saúde suplementar.

Aguardando há duas horas no pronto-atendimento do Hospital Felício Rocho pela internação da mãe Maria Isabel, que precisava retirar um cateter, a cabeleireira Vânia Barbosa Vieira já havia passado também pelo Hospital Semper. A aposentada paga uma mensalidade equivalente a R$ 720, mas sempre que precisa ir à urgência se prepara para esperar.  
Por meio de sua assessoria, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) diz que a questão é complexa, envolvendo diversos fatores – entre eles, o grande número de planos que pode ser atendido por um mesmo hospital. O presidente do Ibdees tem opinião diferente.

Segundo Ferreira, a falta de investimentos e baixa remuneração aos hospitais, tanto do SUS quanto dos planos de saúde, causaram um desestímulo e a rede hospitalar encolheu com o fechamento de diversas entidades – o que explicaria a superlotação.

Para se proteger da demora, os usuários de planos de saúde têm uma saída. Segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), o paciente pode realizar a consulta fora de sua rede credenciada e depois pedir o reembolso. “Se o caso for para internação, pode pedir na Justiça uma liminar para o procedimento imediato”, explica Juliana Ferreira, advogada do Instituto. O coordenador do Procon Assembleia, Marcelo Barbosa, diz que, se houver danos à saúde do consumidor, tanto a operadora quanto o poder público podem ser responsabilizados.