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Sobram famílias, faltam médicos PDF Imprimir E-mail
Qua, 27 de Agosto de 2008 14:09

Programa Saúde da Família recebeu R$ 3,9 bi do governo, mas não garante atendimento ideal

O Programa Saúde da Família (PSF), que só no ano passado recebeu R$ 3,9 bilhões do Ministério da Saúde, não consegue sair das unidades de atendimento pelo país afora, apesar de estar completando 15 anos. As equipes que deveriam acompanhar no máximo 1 mil famílias, em visitas a casas, escolas e creches, nunca estão completas. O problema é crônico: faltam médicos, enfermeiros e dentistas, além de material de trabalho e veículos, mas o repasse do dinheiro público não pára.

Na quarta reportagem da série Sangria na Saúde, o Estado de Minas mostra que, apesar de não ser possível contabilizar o valor total dos desvios no PSF, em apenas cinco municípios das regiões Norte, Sul, Nordeste e Sudeste foram investidos R$ 6.387.660, de um total de R$ 18.877.912, fiscalizados pela Controladoria-Geral da União (CGU), e, ainda assim, nenhum deles consegue cumprir as metas de atendimento.

Os exemplos de ineficácia se multiplicam, como em Mirabela, no Norte de Minas, onde a prefeitura recebeu do Ministério da Saúde R$ 1,5 milhão, sendo que R$ 1.074.180 deveriam impulsionar o PSF. No Amazonas, Careiro recebeu R$ 3,46 milhões e quase metade (R$ 1,187 milhão) tinha como destino manter as visitas domiciliares.


Em Acopiara, no sertão do Ceará, faltam médicos nos postos, mesmo com injeção de R$ 1.995.930. As prefeituras de Primeiro de Maio e Bandeirantes (PR) receberam juntas R$ 2.130.192, mas não conseguem eficácia no programa. Para tentar atrair médicos, os prefeitos oferecem de tudo: bons salários (até R$ 12 mil), aluguel de casa, eletrodomésticos, carro e até mesmo sala para consultório particular. Tudo pago, de forma ilegal, com a verba da saúde.

HANSENÍASE A comunidade de Ibiaci, distrito de Primeiro de Maio, no Norte do Paraná, convive com ameaça grave: o registro de sete casos de hanseníase, só este ano. O índice é alarmante, de acordo com as autoridades sanitárias. Mas os portadores da doença estão abandonados à própria sorte.

Até agora, nada foi feito, conforme admite M.V., servidora municipal do posto de saúde, onde deveria estar funcionando uma equipe do PSF e de Saúde Bucal. Não se pode falar em falta de recurso, pois somente no ano passado, o Ministério da Saúde liberou para o município R$ 867.217.00 para montagem e funcionamento do programa.

A única parte visível do PSF são três carros estacionados no pátio do hospital da cidade. Apesar da distância significativa entre as comunidades mais carentes (Conjunto Primeiro de Maio e Ibiaci), os carros ficam parados 24 horas, sob a sombra das árvores. Típica cena de uma pacata cidade do interior se, a pouco mais de 12 quilômetros dali, dramas pessoais não estivessem sendo ignorados. Numa casinha, ainda de madeira, típica do Paraná, a família do bóia-fria José Rosário, de 54 anos, vítima de derrame cerebral e há dois anos sem fisioterapia, se revolta com a falta de assistência.

Ali, além do aposentado, vivem duas filhas e três netos menores. Nenhum deles pode contar com assistência médica nem pensar no luxo de ter quem acompanhe sua família, como deveria ser no PSF. Para os momentos de absoluta necessidade, só dá mesmo para contar com uma enfermeira que abre o posto das 11h às 17h, mesmo sem muitos recursos.

As filhas de José Rosário, Rosana, de 25, que tem dois filhos, e Renata, de 19, mãe de um bebê de um ano e sete meses, contam que a pesagem das crianças é feita pela Pastoral da Criança a cada mês. É só. “Visita de médico só mesmo para pacientes muito graves, e faz tempo que isso não acontece”, relata Renata.

O abandono da comunidade salta aos olhos e confirma os relatos da CGU. A casa em que deveria estar instalado o PSF de Ibiaci fica numa rua empoeirada e bem na porta do posto o esgoto escorre a céu aberto. No pequeno imóvel, o que se vê são salas vazias, remédios amontoados em prateleiras e sem uso e a falta de esperança de dias melhores.

INVERNADA A pouco mais de 90 quilômetros dali, a situação não é diferente para outra família que vive na comunidade de Invernada, município de Bandeirantes, a 134 quilômetros de Londrina, também no Norte do Paraná. O casal de bóias-frias Israel da Silva e Maria Aparecida Silva, ambos de 67, tem saudade do tempo em que o médico do PSF visitava semanalmente a família. Aparecida, que sofre de diabetes e hipertensão, não precisa fazer força para lembrar quando isso acontecia. Ela bateu o olho na neta Érika, de 6 anos, e lembrou: “Quando essa menina nasceu, o médico parou de vir aqui. Ela nunca foi olhada. Antes o médico vinha toda semana, mas agora sumiu”. Maria Aparecida, que cuida também da filha Zilda, de 27 anos, presa a uma cama pela depressão, diz que para percorrer mil metros que a separam do posto do PSF tem que pedir ajuda ao filho, que a leva de carro.